Repensando o Futebol

Diante de todos os desafios que estamos passando com o Covid19, tornou-se mais estratégico do que nunca observarmos e assimilarmos as pistas que existem nos diversos cenários e segmentos da sociedade contemporânea para combater e superar essa pandemia.
A partir disso, entrevistamos no dia 1º de maio, Adriano Ávila, fundador do Futbox.com – Centro de Pesquisa Gráfica sobre Futebol e especialista em branding esportivo, para nos contar quais as suas impressões e possíveis soluções para o mercado do futebol brasileiro e mundial.
Formulamos 5 perguntas bem diretas e abrangentes sobre o tema. Confira as suas respostas e ouça ao final a entrevista completa com Adriano.

Como a tecnologia pode colaborar para o desenvolvimento do futebol?

O principal objetivo da tecnologia durante o século XXI será humanizar o ser humano. Esse ponto, inclusive, já foi bem antecipado pelo covid-19, o isolamento trouxe à tona todos os nossos desejos e necessidades mais básicas, de afeto, convívio e consumo. Comprometeu muito a estrutura do capitalismo, que para funcionar, precisa que as pessoas tenham suas rendas e se desloquem de um lugar para o outro. Todo esse cenário impactou todos os segmentos da sociedade, o esporte não teria como ficar de fora. No caso específico do futebol atinge a sua essência: o torcedor, ele não pode mais ir ao campo e, quando retornar, pode não ser mais como era.
As soluções até então para o saúde financeira de um clube de futebol passavam pelo sócio-torcedor, pela venda de jogadores, taxa de ocupação dos estádios e cotas de transmissão, todas dependiam de uma presença física, de um contato entre as pessoas. Por que eu compraria um plano de sócio-torcedor se eu não posso ir ao campo assisitir e torcer pelo meu time do coração? Devido a alguma ação ou campanha social? Isso não dá sustentabilidade. A formatação do produto entregue ao torcedor também não funciona mais para ativar as vendas de ingressos, com isso, a taxa de ocupação dos estádios é zero. Se não há nada para transmitir não há cotas a serem comercializadas também. Por fim, como vou vender um jogador que não joga? Em paralelo a isso temos o eSports, ele será responsável por uma fatia estratégica das receitas dos clubes, mas não será o suficiente.
É nesse ponto que a tecnologia irá atuar, é o cenário em que o Futbox está investindo tempo, conhecimento e recursos, inclusive: a ressignificação da tecnologia. Ela como ferramenta de humanização e não como inteligência artificial. A inteligência deve ser natural e promover o reencontro das pessoas com tudo aquilo que é importante para elas. O futebol faz parte desse recorte. Para resolver o problema do futebol precisamos antes entender os cenários atual e futuro do ser humano. Não existe uma resposta fácil, mas a solução passa por uma mudança de como entendemos e nos relacionamos com a tecnologia, a partir daí seremos capazes de reativar o ecossistema futebol de uma maneira sustentável para todos os envolvidos.

Com a pandemia do Coronavirus (COVID-19), os campeonatos estão parados. Como você acha que ficará o calendário do futebol brasileiro pós-pandemia?

Mais do que nunca a pauta sobre a reformulação do calendário brasileiro tornou-se fundamental na agenda dos seus gestores. Há tres anos o Futbox publicou um estudo amplo e profundo sobre o tema. Está disponível em nosso blog. A resposta aqui é mais fácil, não existe mais um calendário brasileiro, argentino, chileno, alemão ou europeu. Talvez esse último seja um ponto de partida para a unificação do calendário mundial do futebol, onde as competições nacionais serão realizadas no mesmo periodo, começando e terminando entre as janelas de transferências, as competições continentais realizadas nas fases de turnos dos campeonatos nacionais, ambos no segundo semestre. Quanto mais rápido os responsáveis por essa reorganização entenderem isso, mais prazeroso e rentável será o cenário do futebol, pois um time disputará um campeonato sem perder seus principais jogadores ou sofrer um desmanche, com isso, os patrocinadores poderão avaliar com mais precisão cada dólar investido em um clube, jogador ou campeonato. As transmissões terão mais o que entregar, o espetáculo será melhor tecnicamente.

No texto que você escreveu sobre “O Novo Calendário do Futebol Brasileiro” em 2017, tem a seguinte frase: O futebol, como qualquer coisa na vida, precisa evoluir e acompanhar as mudanças comportamentais da sociedade. Você acha que o futebol evoluiu dentro desse contexto, de lá pra cá? Agora, pós pandemia, como você acha que será o futebol? Será que teremos um futebol mais sustentável?

A sociedade evolui como um todo, o que não significa que todos os seus setores adquirem a mesma velocidade nesse processo. No Brasil ficamos pra trás em relação aos avanços no jogo, que buscou no passado o sistema WM para alimentar a potência física dos seus jogadores, flutuando em campo. Os técnicos brasileiros ainda limitam seus elencos às suas formas de pensar. Parreira fez isso em 1994, deu certo, mas foi o início do fim da genialidade brasileira, que teve um suspiro em 2002, Felipão também reduziu os jogadores à sua forma de ver o jogo, felizmente tínhamos Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, os últimos craques de verdade do futebol brasileiro.
A gestão do futebol está engessada também, com algumas exceções importantes. Existe uma noção equivocada no futebol de que um clube precisa ser administrado como empresa. Na verdade o que precisamos é de uma gestão híbrida entre clube e empresa. Essa última vende um produto que precisamos ou que nos faz pensar que precisamos. A necessidade no futebol é mais verdadeira, visceral. Se não fizer sentido o torcedor não compra. É o homem que faz o futebol ser “o ópio do povo”, não o futebol. Ele precisa ser sustentável, não há escolha aqui, e a solução para isso passa pelo entendimento da tecnologia como ferramenta para humanizar e não automatizar, porque se for da segunda forma, será um tiro no pé do capitalismo, não haverão empregos suficientes para gerar a renda necessária para movimentar a máquina, que precisa sofrer uma mudança e passar a funcionar como um ecossistema. Precisamos pensar em como gerar renda e não emprego.

No mesmo texto você diz: ‘Como um “ecossistema” favorável ao jogo e ao seu consumo, isto é, clubes com elencos qualificados e competições consistentes’. Como seria isso?

Por meio da reformulação do calendário. Ele nos dará todas as condições para ativar esse ecossistema. Um calendário mundial. Nada mais do que acompanhar e utilizar a globalização que a tecnologia nos proporcionou por meio da inteligência natural.

Novo Calendário do Futebol

Em 2007 você participou da oficina de inclusão gráfica “Entre Morro e Asfalto” para o Projeto Fica Vivo. Conta pra gente o contexto dessa oficina.

Foi a convite de uma grande amiga e jornalista, Michelle Soares. A oficina teve o propósito de levar às comunidades do morro de Belo Horizonte a interação com as ferramentas de tecnologia da época, disponíveis quase em sua totalidade às pessoas do asfalto (cidades ditas urbanizadas). Os alunos lidavam com os computadores e com os programas de design, como corel draw, illustrator e photoshop, além do contato e manuseio das máquinas digitais de fotografia. Dividimos os jovens em grupos e cada um tinha que desenvolver e apresentar uma campanha. Aplicamos também nesse contexto o processo criativo para desenvolvimento de uma marca. Foi uma experiência sensacional, mas o mais importante foi aproximar dois universos: o morro e o asfalto, entendendo suas particularidades e diferenças, mas promovendo oportunidades, distintas, mas reais.

Fonte: FutBox