Os 70 de 50

Mês passado comemoramos os 50 anos de 70.
Hoje choramos os 70 anos de 50.
50 e 70.
Palíndromos.
Vinte anos luz do nosso futebol.
A temperatura no Rio era amena.
Mínima de 14 e máxima de 25 graus.
16 de julho era um domingo banal no Distrito Federal.
Exceto pelas 200 mil pessoas rumando ao Maracanã.
Estatisticamente menos que os 80 mil uruguaios na final de 30.
Porém, ainda a maior multidão presente num estádio de futebol.
Como curiosidade, vinte fatos singelos daquele fatídico dia.
Vinte fatos… um para cada ano.
Pelo telefone 23-0024 poderíamos alugar duas cadeiras cativas no Maracanã para a final. Porque alguém resolveu que daria azar ir ao estádio e botou pra vender.
Não sabemos até hoje o destino de quem comprou as cadeiras na sombra.
Naqueles dias pré smartphone e Bluetooth, em cinco horas dava pra tirar e receber fotos para identidade. No dia 17 se bateram milhares de chapas 3×4 no Rio tantas foram as carteiras perdidas.
Pagava-se Cr$ 100,00 para um ambulante no estádio, e o ambulante ainda via o jogo de graça.
Para se ter uma idéia com 4500 cruzeiros se comprava uma radiola.
Maneca estava machucado e Friaça jogaria.
O presidente ds CBD chorou no papo com os jogadores. O nome dele era… Marco Polo.
A renda era calculada em 6 milhões de cruzeiros ou mais de mil radiolas.
Dercy Gonçalves apresentava no Teatro Recreio o espetáculo CATUCA POR BAIXO.
Obdulio Varela e Tejera foram manchete. Sorridentes.
Brasil 7×1 Suécia e Brasil 6×1 na Espanha estavam no Cinema Trianon, às dez da manhã. Depois sumiram do mapa. O Mundial do Brasil se tornou um vazio cinematográfico.
As 120 mil arquibancadas estavam esgotadas na véspera.
As 14 mil cadeiras numeradas também.
Com 200 cruzeiros se comprava um terno
O alfaiate Adonis oferece nos jornais um traje completo ao goleiro Barbosa… nunca cumpriu a promessa.
A Espanha tinha certeza que seria vice campeã mundial
Ademir e Chico receberam lotes de terreno pela artilharia antes do jogo
Uma marchinha chamada EU SOU BRASILEIRO de Lamartine Babo estava preparada para ser o hino de guerra… felizmente se perdeu na história.
O patrono do Bangu ofereceu medalhas de ouro aos futuros campeões.
O portão da concentração em São Januário virou casa da Mãe Joana.
O técnico uruguaio Juan Lopez se recusou a divulgar a escalação na véspera do jogo
No dia 15 de julho, em silêncio, pela manhã, o time uruguaio foi sozinho ao gramado do Maracanã reconhecer o Maior do Mundo.
O cronista Vargas Neto resumiu o pensamento brasileiro:
‘Não admito a hipótese que não inclua o mais amplo e belo triunfo’.
Dessa maneira, meus amigos.
O Brasil foi vice.
O Uruguai campeão.
A Suécia foi terceiro.
A Espanha amargou um quarto lugar.
E em Pernambuco, acredite quem quiser.
Um apostador acertou em cheio o placar do Maracanazzo.
Enquanto quatro outros também cravavam a vitória celeste num concurso de um jornal.
O Brasil que saiu daquele Maracanã não era o mesmo Brasil de antes.
Ali perdemos a inocência.
Ali entramos na idade adulta.
Ali comecaram nossos cabelos brancos…

Fonte: Blog do Paulinho