Opinião: ‘A vitória da Espanha foi o reflexo do melhor Barcelona da história’

Para analisar a vitória da seleção espanhola na Copa da África do Sul há uma década, quando ‘La Roja’ superou a Holanda por 1 a 0, na prorrogação, o Super.FC contou com a participação do jornalista Joaquim Piera, correspondente no Brasil do diário SPORT, de Barcelona. Para o profissional de imprensa, aquele título tem dois pontos-chave. O primeiro deles é o Barcelona.  “Eu acho que a vitória da seleção espanhola em 2010 entra em uma tradição que talvez começou com a seleção brasileira nas Copas de 1958 e 1962, que foram dois Mundiais muito marcados pela presença de jogadores de dois times: o Santos e o Botafogo. Depois se repete na Copa de 1974, com a vitória da Alemanha sobre a Holanda, que era basicamente a coluna vertebral do Bayern de Munique”, pontua o correspondente.  “A vitória da Espanha na Copa de 2010 é o reflexo do melhor Barcelona de toda a história. Um time que ainda agora deixa saudades em Barcelona porque a grande maioria era titular no time catalão”, acrescenta Joaquim. O jornalista explicou a criação do termo ‘Tiki Taka’ e a conotação pejorativa do mesmo para a imprensa catalã e também para Pep Guardiola, o responsável por aperfeiçoar o sistema de jogo.  “Era uma equipe envolvente na posse da bola e que a mídia de Madri acabou criando a terminologia do Tiki Taka. O técnico que aperfeiçoou esse sistema de jogo, de posse de bola, de atacar por meio do ataque estático e defender através da posse de bola, ou seja, quando você tem a bola, você também está se defendendo, uma vez que o time não pode atacar, foi o Guardiola. Quem criou isso, lá atrás, foi o Rinus Mitchell. Vimos essa dinâmica na Holanda na Copa de 1974, depois veio o Johan Cruyff em sua brilhante etapa como treinador do Barcelona de 1989 a 1995. Aquele time tinha o Guardiola. Depois, o discípulo superou o professor”, explica Joaquim.  “O Guardiola, que quis dar mais modernidade a esse estilo de jogo, não gosta do termo ‘Tiki Taka’. Ele acha que essa terminação traz um pouco de desdém, tanto que nem a torcida do Barcelona fala isso, muito menos a mídia catalã. Do meu ponto de vista, a importância daquele título foi que uma seleção conseguiu transformar-se naquele momento no clube determinante em seu país”, ressaltou o profissional de imprensa.  FIM DA MALDIÇÃO A Eurocopa de 2008 significou o fim da maldição das quartas que sempre acompanhou a Fúria. Na África do Sul, a seleção espanhola ratificou essa condição, avançando cada estágio até o título inédito e colocando aquele grupo entre as campeãs do mudo com o melhor futebol.  “A seleção espanhola finalmente deixou o azar que estava acompanhando a equipe ao longo de toda sua história, boas seleções, como na Copa de 1986, ou no Mundial de 1994, e finalmente quebrou o tabu das quartas de final, da semifinal em um jogo muito pegado contra a Alemanha, conseguiu passar à final e na primeira decisão levou o título. A partir daquele momento, a seleção deixou de ser a histórica ‘Fúria’ para se converter em uma seleção que, mesmo com um título, entrou no patamar de um campeão daqueles times que jogaram bola, tiveram um futebol agradável, algo que não tinha acontecido, por exemplo, há quatro anos, quando a Itália conquistou o título na Alemanha. Isso para mim foi o mais importante”, apontou Joaquim.  O PAPEL DECISIVO DE DEL BOSQUE O outro ponto que foi determinante para a conquista da seleção espanhola foi Vicente Del Bosque. Joaquim Piera reforça o papel exercido pelo treinador para apaziguar a relação com a sempre incisiva imprensa de Madri, que historicamente cobrava nas convocações a presença de uma coluna vertebral do Real Madrid. Foi preciso uma mudança completa.  “Do ponto de vista interno, não foi fácil. A seleção espanhola sempre teve em sua coluna vertebral jogadores em sua maioria do Real Madrid, mas nessa competição os principais nomes eram oriundos da base do Barcelona. Mas o Vicente Del Bosque, grande jogador do Real Madrid e que foi técnico do clube, sendo inclusive campeão da Champions, é uma pessoa absolutamente humilde, e foi a pessoa que permitiu ‘domesticar’ toda essa mídia de Madri, que sempre faz pressão pela convocação de jogadores do Real Madrid para Eurocopas e Copas do Mundo”, disse o jornalista.  “Ele freou de forma muito inteligente essa pressão e se pôs como um ‘paizão’ dos atletas. O Del Bosque conseguiu extrair o melhor de todos os atletas e seguiu o trabalho começado pelo Luís Aragonés, que conquistou a Euro de 2008, quando a seleção espanhola ganhou seu segundo torneio continental. Atualmente, o mesmo que aconteceu com o Barcelona vem sendo visto na seleção. A Espanha está muito longe do nível apresentado na África do Sul, e também o Barcelona está muito longe do nível apresentado que encantou o mundo com Guardiola, e que no Brasil quem acabou sofrendo foi o Santos, na final do Mundial de 2011”, finalizou o jornalista espanhol.

 

Fonte: O Tempo