Itaú BBA vê Cruzeiro no fundo do abismo e sugere ‘refundação’ do clube; entenda

“A corda estourou, e o abismo é fundo”. Essa é a conclusão da consultoria Itaú BBA sobre o balanço financeiro do Cruzeiro, de 2019, e a projeção para este e os próximos anos. “Não há prazer em dizer que a situação do Cruzeiro é insustentável. Há alguns anos, estamos apontando esse tema e alertamos que o clube vivia além do limite e dependia de fatores imponderáveis, como conquistas ou vendas de atletas, para fechar suas contas. Ainda assim acumulava dívidas”, ressalta a empresa especializada em finanças. Rebaixado à Série B, o Cruzeiro teve custos bem acima da receita, investimentos incompatíveis e aumento gritante das dívidas. A dívida total do Cruzeiro passou de R$ 469 milhões, em 2018, para R$ 631 milhões no ano passado. As dívidas vinham com tendência de alta nos últimos anos, mas explodem com crescimento de 151%. Todas as dívidas aumentaram, incluindo o Profut, e o que tinha a pagar a clubes e salários de atletas. A geração de caixa (Ebitda) já nasceu negativa em R$ 65,5 milhões. O clube “se refinanciou” para arcar com salários e adquirir novos atletas. Só a falta de pagamento de impostos representa um incremento de R$ 125 milhões na dívidas. O clube, no entanto, ainda investiu R$ 19 milhões investidos na base e R$ 63 milhões no profissional. As receitas do Cruzeiro, por sua vez, caíram 14% no total e 39% no recorrente, motivadas por redução dos valores da TV (em 2018, o time foi campeão da Copa do Brasil, mas, em 2019, não) e de publicidade. De positivo, o clube conseguiu arrecadar com a venda de atletas. O Itaú BBA vê 2020 como um cenário dificílimo para o Cruzeiro, primeiro, por causa do rebaixamento, que diminui as receitas de TV e, depois, por conta da pandemia do novo coronavírus, que vai retirar o público dos estádios por um bom tempo e, por fim, por causa da própria crise na economia. “A chance de aumentar patrocínios só existe se houver algum mecenas”, aponta o relatório. O SUPER.FC conversou com Cesar Grafietti, consultor de gestão e finanças do esporte, contratado pelo Itaú BBA para fazer a análise financeira dos principais clubes do país. Ele aponta caminhos e desafios que o clube terá nesta fase de restruturação. Confira: O Cruzeiro precisa ser “refundado”? O que significa isso na prática? Refundar é cortar o que o clube fez até agora. Esquece o Cruzeiro que chegou até aqui. Refunda, recomeça do zero, com outras pessoas, outras gestões, reestruturando o clube de fato, trocando pessoas, mudando o conselho, O estatuto, refundando efetivamente. É um conceito de abandonar as velhas práticas e recomeçar com práticas novas. Se você mudou as peças de lugar e elas estavam no mesmo tabuleiro, a chance de não conseguir efetivamente é grande. Quais são os maiores desafios por agora? Primeiro, tem que refazer tudo o que foi feito até agora. Segundo, o clube vai passar por momentos muito difíceis, que já teria menos receita porque boa parte da TV estava adiantada, vai pra Série B. Nesse momento de pandemia, sem o principal ativo que é o torcedor, estádio e programa de sócio eficiente, vai ter menos receita. Além de honrar a série de dívidas que tem pela frente, que a cada dia surge uma coisa nova, vai ter muita dificuldade. A transformação em clube-empresa é uma solução? Tem que refundar do ponto de vista estrutural, mental, e do ponto de vista financeiro. Como vai fazer? Dá pra virar empresa agora? Não dá, porque vai aparecer alguém com R$ 800 milhões para resolver o problema do clube em uma temporada e, em 2021, de volta à Série A, ter um aporte de R$ 500 milhões para contratações? Não vai ter. Não existe isso. Seria melhor o Cruzeiro decretar falência ou insolvência civil? Seria bom? Essa nova gestão precisa reorganizar o clube, se usar dos instrumentos do projeto de lei, uma recuperação judicial, talvez tenha que usar ou uma insolvência civil, pra poder reestruturar os seus parceiros, de uma forma organizada e, aí sim, em quatro, cinco, seis anos depois, vai voltar a ter uma competitividade tão grande como no passado e virar alvo de investidores. Vai ser preciso ter paciência? O Cruzeiro é um clube entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões de faturamento. Se ele conseguir alavancar a parte desportiva… porque gastava mais do que isso. Se ele se enquadrar nesse faturamento e gastar R$ 170 milhões, R$ 180 milhões, ele ainda vai ficar quatro vezes atrás do Flamengo, três vezes atrás do Palmeiras. Tem que ter paciência, mentalidade de reestruturação e dar tempo para que as coisas sejam alteradas. Talvez vire empresa para reestruturar essa mudança e, lá na frente, possa ser vendido para alguém lá e retomar o Cruzeiro das conquistas. Nesse processo de “refundação” que explicou ou mesmo se o clube pedir insolvência ou recuperação judicial (se virar empresa), qual o risco de ele ter que trocar de nome? Ou isso não existe? É blindado? O Brasil não tem histórico nesse sentido. Talvez valha a pena criar jurisprudência, fazendo com que os símbolos e as marcas sejam leiloados, guardando algumas condições: servir a algum clube, não poder ser “engavetada”, dar direito de preferência ao novo clube (mantido preço máximo obtido no leilão), entre outras. Não há blindagem, mas é preciso criar alguma estrutura que preserve isso. O receio do torcedor é ver o time obrigado a trocar de nome ou que o nome “Cruzeiro” desapareça por conta de insolvência ou falência. Não há esse perigo? Não. Mas o bom senso que costuma prevalecer nessas tratativas tende a criar regras que direcionem ao clube sucessor. Na Itália foi assim. O novo clube nasce com outro novo – Cruzeiro Sport Club – e quando é leiloado ele compra as propriedades e muda para o nome antigo. Em entrevista à rádio Super 91,7 FM, o presidente do Cruzeiro, Sérgio Rodrigues, falou sobre o processo de reestruturação do clube, incluindo a proposta de clube-empresa, a decretação de falência ou insolvência civil e o conceito de “refundação”. Confira:

Fonte: O Tempo