Gol de Iniesta em 2010 marcou amizade interrompida de forma trágica no Brasil

Jordi Gil (foto abaixo), premiado jornalista do diário catalão Sport, sabadellense de origem (quem leu o livro “11 cidades”, de Axel Torres, logo vai se lembrar do Sabadell – quem não o leu, faça o favor de ler. Uma leitura deliciosa sobre futebol) acompanhou a Copa do Mundo de 2010 lado a lado com a seleção espanhola. Uma década depois da conquista histórica sobre a Holanda, o profissional de imprensa recordou, em contato com o Super.FC, algumas das suas experiências no encalço de La Roja durante a preparação e a disputa da Copa.  DESCONFIANÇA Mesmo com o título Eurocopa de 2008 no currículo, a Espanha chegou à Copa da África do Sul com feridas abertas, como relata Jordi.  “As expectativas eram altas depois de vencer a Eurocopa de 2008 e também de ter vencido todas as partidas da fase de qualificação. No entanto, também houve algumas dúvidas. A derrota na Copa das Confederações de 2009 contra os Estados Unidos foi um alerta. Havia otimismo, mas também a lembrança de outras decepções ainda estava presente. As feridas ainda estavam abertas”, contou o jornalista.  E ‘La Roja’ começou muito mal o Mundial de 2010, sendo derrotada pela Suíça por 1 a 0, um antigo freguês que nunca havia vencido os espanhóis. Havia um temor de uma nova decepção, Mas a história mudou. Havia uma confiança. A maldição de sempre cair nas quartas de final caiu lá atrás, em 2008, quando os espanhóis eliminaram a Itália da Eurocopa nos pênaltis. A partir dali, o time sempre acreditou que poderia ir além. E foi isso que os comandados de Vicente Del Bosque fizeram.  A VITÓRIA DO TIKI TAKA A seleção espanhola de 2010 tinha como base o Barcelona. No total, foram sete atletas do time blaugrana convocados contra quatro do Real. A rivalidade entre os gigantes do Espanhol não influenciava no comportamento dos atletas. Del Bosque seguiu a lógica do ’em time que se está ganhando não se mexe’ e seguiu com a filosofia de Luís Aragonés, campeão da Euro 2008, que enraizou na Fúria o estilo Barcelona de jogo e com isso triunfou.  “Na Copa do Mundo de 2010, essa rivalidade ainda não existia porque Mourinho ainda não havia chegado ao Real Madrid. A atmosfera era muito boa na equipe. No Euro 2012 houve mais tensão. O tiki taka triunfou porque foi imposto por alguém que não era de Barcelona ou Real Madrid, mas de Luís Aragonés na Euro de 2008. Luís criou um estilo que Del Bosque mantinha e que Guardiola também praticava no Barça. Devemos lembrar que 7 jogadores do Barça estavam no time, além de Villa, que assinaria naquele verão, e Cesc Fàbregas, que o fez em 2011. Jogadores do DNA Barça”, reforça Jordi.  A VOLTA POR CIMA DE INIESTA O grande nome da Copa do Mundo de 2010 foi Iniesta, autor do gol que sacramentou o inédito título espanhol. Jordi Gil lembra com carinho a história de recuperação do atleta, que chegou a ser apontado como dúvida para a sequência do Mundial após lesão no primeiro jogo, mas voltou para se tornar um herói nacional. Antes, no ano anterior, o meia chegou a ter um quadro de depressão.  “O gol de Iniesta foi muito especial para todos. Ele teve um ano ruim por causa de uma lesão que levou à depressão. No primeiro jogo contra a Suíça, ele se machucou e todos temíamos o pior, mas ele se recuperou e acabou sendo o jogador decisivo. Sua dedicação a seu amigo Dani Jarque, que morreu um ano antes, chegou ao coração das pessoas”, relatou Jordi.  Dani Jarque, amigo de Iniesta, jogava no Espanyol. Ele sofreu um ataque cardíaco em agosto de 2009, e morreu aos 26 anos. Após marcar o gol da vitória por 1 a 0 sobre a Holanda, na prorrogação da final da Copa de 2010, Iniesta levantou a camisa da Espanha e mostrou uma camiseta em homenagem ao amigo: “Dani Jarque Sempre Conosco”. Para sair do quadro de depressão, Iniesta contou com a ajuda da psicóloga Inma Puig e o apoio do então técnico do Barça, Pep Guardiola.  UMA ÚLTIMA LEMBRANÇA COM UM AMIGO Para Jordi Gil, o gol de Iniesta guarda também um valor sentimental. É uma lembrança compartilhada com um amigo que faleceu na Copa do Brasil, em 2014.  “Particularmente, compartilhei a partida com Jorge Topo Lopez, jornalista argentino que colaborou com o Sport e morreu na Copa do Mundo no Brasil. Antes do jogo contra a Holanda, ele me disse: ‘Andresito marcará’. Nós dois gostamos muito de Iniesta e ficamos muito empolgados por ter sido ele o responsável por dar a vitória para a seleção espanhola. Foi uma emoção ter vivido aquele momento e essa memória ao lado do Jorge sempre vai me acompanhar”, disse o jornalista espanhol.  Jorge Topo Lopez (foto abaixo) morreu aos 38 anos, em São Paulo, quando o táxi em que ele se encontrava foi atingido por um veículo ocupado por bandidos que fugiam da Polícia Militar. O caso ocorreu no dia 9 de julho de 2014, horas antes de a Argentina superar a Holanda pela semifinal do torneio. Jorge era um dos repórteres mais respeitados e queridos da Argentina, tanto que era um dos profissionais de imprensa mais próximos a Lionel Messi, com quem conviveu entre 2000 e 2005 em Barcelona. Topo Lopez criou uma relação de amizade com o craque do Barça e com o técnico Pep Guardiola. A viúva de Jorge, Veronica Brunati, esteve no Brasil no ano passado. Ela também é jornalista e cobriu a Copa América no encalço da seleção argentina. Ela ainda luta na Justiça Brasileira para aumentar as penas dos responsáveis pela morte do marido, além do estado de São Paulo por negligência em todo o caso.  A UNIÃO DO FUTEBOL As divisões políticas na Espanha sempre foram acirradas. Mas por um momento, o país foi um só. Algo que o futebol pode proporcionar. Iniesta foi o responsável por esse momente de êxtase coletivo, que suplantou as diferenças. Uma década depois, a realidade é outra. A Espanha parece ainda mais dividida, mas a recordação daquele jogo e daquele momento é um alento.  “Uniu o país no nível do futebol, mas não no nível político. A divisão continuou e ao longo dos anos ficou ainda maior. Esse gol uniu o país porque mostrou para todo o mundo uma maneira de vencer com um jogo bonito, com um estilo que prioriza o passe, a bola, e com muito fair play. Foi um título também que honrou o treinador que é Del Bosque, um mister e que merecia vencer uma competição como a Copa do Mundo”, finalizou Jordi.

 

Fonte: O Tempo