Especialista analisa caminhos para Cruzeiro encurtar processo de recuperação

O balanço divulgado do Cruzeiro em 2019 apontou uma dívida de R$ 800 milhões, uma evolução desastrosa de quase R$ 400 milhões em débitos em apenas dois anos. A Pluri Consultoria apontou como o ‘pior da história do país’. O clube vinha passando por um processo de endividamento desde 2011, mas acentuou a crise financeira com administrações que sempre ligaram o êxito desportivo às receitas. Agora, na segunda divisão, a Raposa paga o preço. Um processo doloroso, mas que caberá à nova gestão encontrar um rumo para tornar o Cruzeiro novamente estável economicamente. As projeções são otimistas. Um ano e meio para tornar o clube financeiramente sustentável. Mas como fazer isso acontecer em um espaço de tempo relativamente curto. Um pilar já foi definido pela atual gestão: o retorno a Série A do Brasileiro.  Pensamento que também é compartilhado por Fernando Ferreira, diretor da Pluri Consultoria, que também aponta outro caminho para o clube: a venda de jogadores formados na base do clube. Em momento de dificuldade, o Cruzeiro vem colocando seus garotos à prova no time profissional. São 17 jogadores formados na base do clube no time profissional. Sendo que o próprio presidente já apontou que o clube recebeu propostas e sondagens por sete nomes.   “A situação do Cruzeiro é bem complicada. Em um ano e meio (para se recuperar) você tem que ter uma premissa. Uma delas é voltar para a primeira divisão porque é ali que está o dinheiro. Na segunda divisão, a receita é muito penalizada. Acho isso possível (retornar à primeira divisão). A outra opção é o seguinte: a vantagem competitiva do futebol brasileiro é a venda de jogador, fornecimento de atleta ao mercado mundial. O Brasil tem 1.622 jogadores atuando no mundo, em ligas profissionais, 75% desses jogadores estão em ligas de primeira divisão. Nós somos o maior fornecedor de jogador de futebol do mundo e com uma boa margem. A França vem em segundo lugar com cerca de mil, e a Argentina em torno de 700 jogadores. A vantagem competitiva é essa. Os clubes brasileiros finalmente acordaram para a questão que produzir jogadores com custo em reais no Brasil para um mercado que é ávido por comprar jogadores brasileiros, pagando em euro, com uma moeda brasileira extremamente desvalorizada e o o euro valendo muito, é uma equação financeira que pode tirar um time do buraco”, analisou Fernando, em entrevista à rádio Super 91.7 FM.   Mas para esse tipo de transação se tornar rentável em um curto prazo de tempo, Fernando analisa que os clubes precisam objetivar o comprador final. O que acontece no futebol atual é que muitos clubes são intermediários. Ou seja, contratam promessas do Brasil, que vingam e posterioramente são negociados com potências da Europa. Esse é um grande desafio dos clubes brasileiros, ainda mais em condições extremamente delicadas de caixa como o momento que o Cruzeiro atravessa, além da presença na segunda divisão. Apesar disso, a diretoria vem assegurando as promessas para conseguir negociações mais rentáveis, mesmo que elas não apontem para o comprador final. Recentemente, o clube recusou propostas inferiores por destaques como os volantes Jadsom e Adriano. Nesse sentido, caberá ao clube valorizar seus potenciais para conseguir negociações que atinjam um patamar financeiro que traga essa rentabilidade.  “O Cruzeiro tem uma dívida líquida de R$ 800 milhões que equivale a 130 milhões de euros. Se o Cruzeiro tiver uma base boa, e conseguir vender para o mercado internacional acessando direto um potencial comprador final, por exemplo o que o Flamengo fez vendendo o Vinícius Júnior diretamente ao Real Madrid, o Santos vendendo o Rodrygo ao Real Madrid, será essencial. A cadeia de compra de um jogador está cheia de intermediários. Qual é o problema? O problema é que você vende um jogador para o Porto, o clube português prepara o jogador e vende para o Arsenal. Nessa cadeia, o dinheiro fica no meio do caminho. Os clubes brasileiros precisam colocar o seu jogador no mercado final. Quando eles (clubes) fazem isso podem, em um período de tempo relativamente curto, reduzir demais a pressão sobre o seu caixa, atuando no mercado externo na venda de jogadores”, ponderou Fernando.  O Flamengo é um dos exemplos de gestão no futebol brasileiro. Mas, para além da área administrativa, o clube também contou com um incremento financeiro poderoso de vendas para o mercado final que o ajudou a ser a potência financeira que é atualmente.  “Eu uso sempre o exemplo que é o Flamengo. O Flamengo fez um trabalho de lição de casa de gestão muito grande, primeiro de cortar despesas, depois aumentar receitas, mas a diferença que fez o Flamengo ser o elenco, do ponto de vista econômico que está agora, foi que em três anos e um trimestre o clube fez R$ 750 milhões de receita de venda de jogador, receita líquida, em um período que o mercado não era tão positivo como era hoje”, exemplifica o diretor. “No ano passado, os 34 maiores clubes puseram no caixa R$ 1,7 bilhão com venda de jogadores. Esse valor só perdeu para os de direitos de transmissão, que foi de R$ 2,1 bilhão em 2019. A saída para os clubes é usar a base. O ideal, o desejável, é que os jogadores fiquem no Brasil o máximo de tempo possível. Mas a condição financeira dificulta isso hoje. O clube deveria focar em poder gerar receita para formação de jogador para poder ter mais condição de manter, um pouco mais à frente, uma condição financeira mais equilibrada, os jogadores dentro de casa, e aí sim a gente muda de patamar o futebol brasileiro”, finalizou Fernando.  No balanço de 2019, o Cruzeiro divulgou que teve uma receita de R$79.093.165 com vendas e empréstimos de jogadores em 2019. No ano passado, a Raposa se desfez de jogadores como Lucas Romero (negociado com o Independiente-ARG), Raniel (vendido para o Santos e hoje no São Paulo) e Murilo (atualmente no Lokomotiv-RUS). Tendo como objetivo o mercado final, a última negociação de grande porte do Cruzeiro foi a transferência de Lucas Silva ao Real Madrid. À época, a transação foi efetuado em 14 milhões de euros (cerca de R$ 40,6 milhões no período).

 

Fonte: O Tempo