Dunga general, consolo a Felipe Melo e o choro do adeus: ex-Cruzeiro lembra 2010

Remanescente da Copa de 2006, Gilberto já esbanjava experiência quando chegou ao Cruzeiro. A qualidade técnica e também a idade, – ele já possuía 33 anos -, o fizeram atuar no clube como armador sob a batuta de Adilson Batista. Mas isso não impediu que Dunga lhe desse a oportunidade de disputar mais um Mundial como lateral-esquerdo. Ele foi um dos três jogadores que atuavam no futebol Brasileiro convocados para a Copa da África. Os outros dois foram Kleberson, do Flamengo, e Robinho, do Santos. Com o olhar de quem integrou aquele time, marcado pela eliminação para a Holanda nas quartas de final, Gilberto falou com propriedade, em entrevista ao Super.FC, sobre temas espinhosos, dentre eles a culpa atribuída a Felipe Melo naquela desclassificação. Gilberto retornou ao Brasil justamente ao lado do volante e procurou tirar a preocupação da mente do companheiro, que temia pela recepção dos torcedores.  “Eu acho que o Felipe conseguiu se sair bem depois daquilo. Ele fez sucesso na Turquia. É um cara querido, conhecido como Pitbulll por lá (na Turquia). Eu e ele, voltamos lado a lado, no mesmo voo para o Brasil depois da eliminação na Copa. Ele estava preocupado com essa coisa dele ter sido o culpado, por ele ter sido expulso e também o lance do gol com o Júlio César. Falei para ele ficar tranquilo, primeiro que o gol foi um erro coletivo, e a expulsão é uma situação que todos estão sujeitos no futebol”, disse Gilberto. “Eu acho que, no fim, ele tirou foi proveito de toda essa situação. Ele sempre teve essa característica, fala o que pensa, às vezes fala sem pensar também. É um jogador que gosta do contato físico, jogador de muita força. Mas eu conversava com ele que era injustiça culpá-lo. Acho que o futebol tem muito disso, de sempre ter que pegar um para Cristo. Mas, por exemplo, foi ele que deu o passe para o gol do Robinho (o jogador santista abriu o placar em cima da Holanda, mas o Brasil tomou a virada)”, acrescentou o ex-jogador.  Naquele jogo contra os holandeses, a seleção brasileira acabou sucumbindo na segunda etapa após ir para o intervalo vencendo. A história poderia ter sido outra, Gilberto?  “A seleção jogou um primeiro tempo bom. O Felipe melo fez um grande passe para o Robinho, ele fez o 1 a 0, No segundo tempo, a Holanda cresceu no jogo. É muito difícil falar que se tivesse 11 contra 11 poderíamos ter uma história melhor. A gente já viu tantas equipes vencendo com um jogador a menos. O que tinha que acontecer, aconteceu. Infelizmente teve a falha do gol, a expulsão, mas reclama-se também de um pênalti que não foi dado no Kaká. Mas acho que o importante é saber que  a gente tentou e fomos eliminados para uma grande seleção. Não à toa, eles chegaram na final”, ressaltou o ex-cruzeirense.  GENERAL DUNGA? NEM TANTO… Dunga chegou à seleção brasileira com a missão de acabar com a ‘mamata’ que aconteceu antes e durante a Copa de 2006, na Alemanha. Havia um clamor por disciplina, e o comandante realmente encarnou esse mantra. A linha dura de Dunga blindou a seleção brasileira, que permaneceu durante toda a Copa da África bastante isolada.  “Fomos liberados só uma vez na África. Aproveitei para ir ao shopping por lá, mas no restante a gente ficou mais no hotel e concentração mesmo. O Dunga não queria que ficássemos de bobeira, ele achou que tivemos muita liberdade na Alemanha e não queria repetir o mesmo”, lembra Gilberto. “O Dunga buscou blindar a seleção de todas as formas e fomos para a África para recuperar aquilo que perdemos em 2006”, completa o ex-lateral.  Por ter vivido os dois lados da moeda, uma vez que foi o reserva de Roberto Carlos em 2006, Gilberto disse ao Super.FC que a postura de Dunga, por vezes visto como um disciplinador ferrenho e antipático com a mídia, era compreensível. Mas que esse lado turrão também reservava uma pessoa que brincava na hora certa e preocupado apenas com o grupo.  “Eu entendo o lado do Dunga. Ele foi um atleta que em 90 ficou marcado por ser a cara de uma seleção turculenta, de futebol muito duro, violento. Aí em 94 o Dunga vem e consegue conquistar a Copa, ergue ainda a taça como capitão da seleção brasileira, e quando ele está levantando a taça, dá para sentir que está carregado da raiva ainda, de ter sído taxado como um jogador medíocre desde a Copa de 90”, opina Gilberto. “Aí entra ele como treinador em 2006, tenta resgatar a importância de se vestir a camisa da seleção brasileira. E deu certo, a gente conquistou a Copa América, a Copa das Confederações. O elenco nosso realmente não era igual de 2006, mas tínhamos jogadores de alto nível. No dia a dia, quem não conhece o Dunga, acha que ele é só daquele. O Gilmar Rinaldi disse esses dias que ele tinha dado umas aulas para o Dunga de comportamento, antes dele voltar para a segunda passagem pela seleção. Mas fora das câmera, o Dunga é um cara que contava piada, lógico que não era de dar muita risada, mas no treino, ele queria atenção o tempo todo. Ele tinha os momentos dele de descontração, mas quando se tratava do trabalho, ele cobrava muito. Talvez a criação dele como atleta tenha influenciado nessa percepção carrancuda que criou-se dele.. Mas ele tentou, e conseguiu de certo modo nos passar que era importante vestir a camisa da seleção brasileira novamente, que era um orgulho poder estar ali”, analisou Gilberto.  O CHORO DA DESPEDIDA À SELEÇÃO Gilberto foi a duas Copas do Mundo em sequência, mas acabou não conquistando a taça mais cobiçada do futebol mundial. Após a partida contra a Holanda, os jogadores retornaram para a concentração e o sentimento para muitos era de adeus. Viver um Mundial é para poucos. Por mais duro que seja representar o Brasil em uma Copa, criam-se laços. E ter a certeza de que aquela foi a última vez experimentando uma experiência indescritível balança o emocional.  “Lembro que quando voltamos para o hotel, naquele jantar após a partida contra a Holanda, o nosso encontro foi bastante triste. Uma choradeira que já tinha se iniciado no ônibus. Para muitos, aquela era a última Copa. O clima de seleção é uma coisa única, e eu mesmo, aos 33 anos, já tinha a certeza depois daquele jogo que nunca mais viveria aquilo. Isso me emocionou bastante. Muitos atletas pediram a palavra durante o nosso encontro. Uma despedida. Lembro do Júlio César, ele chorou bastante, pediu desculpas pela falha no gol. Mas ele ainda retornaria para a Copa de 2014. Além de mim, outros atletas tinham a certeza de que não conseguiriam chegar até o próximo Mundial, como foi o caso do Lúcio, que chorou bastante, e muitos outros nomes. Particularamente, para mim, foi muito ruim porque fui a duas Copas e não consegui vencer. Chorava muito porque não poderia voltar mais. Era impossível convocar novamente um lateral de 37 anos para um outro Mundial”, relatou o ex-jogador do Cruzeiro.  A reformulação de uma Copa para a outra foi realmente profunda, e a maior em 64 anos de história da seleção brasileira. Dos 23 jogadores convocados por Dunga, 18 não foram lembrados por Felipão. Foram eles: Doni, Elano, Felipe Melo, Gilberto, Gilberto Silva, Gomes, Grafite, Josué, Juan, Júlio Baptista, Kaká, Kleberson, Michel Bastos, Lúcio, Luisão, Luís Fabiano, Nilmar e Robinho. GRUPO QUE NÃO FICOU NA HISTÓRIA? A seleção brasileira chamada por Dunga para a Copa de 2010 rendeu muitas críticas e debates. Mas era um grupo testado e forjado, que já havia provado seu valor em competições internacionais, e passou de forma tranquila nas Eliminatórias. Mas aquela sensação de desconfiança sempre recaiu sobre os comandados de Dunga desde a preparação para o torneio. Talvez o distanciamento com o público, com o povo, possa ter criado ainda mais um ar antipático. Mas Gilberto não acredita que os jogadores que lá estavam se perderam dentro da história da seleção brasileira em Copas.  Esse descrédito, para o ex-jogador, se dá mais pela cultura e mentalidade de honrar apenas os vencedores. Mas Gilberto acredita que essa análise mudou. “É nossa cultura. Acho que a seleção de 82 sofreu com isso, a de 86, de 90. É a nossa cultura de que o vice, o terceiro lugar, ou uma eliminação nas quartas não tem importância, muito diferente de outros países. No Brasil, para aparecer sempre tem que ser o primeiro. É óbivo que isso não é a realidade. Creio eu que, por exemplo, a imprensa esportiva brasileira conseguiu enxergar isso, principalmente depois do 7 a 1, de que trabahos bem estruturados e um planejamento a longo prazo têm relevância. Você começa a melhorar o seu trabalho para conseguir conquistar uma coisa melhor, como o que aconteceu com a Alemanha. Você vê a Copa na Alemanha, o país chegou em terceiro, e o país fez uma grande festa. Duas Copas depois, eles foram campeões e o trabalho também foi muito bem feito na África”, opina Gilberto.  “A imprensa brasileira começou a enxergar de uma maneira melhor a necessidade de se criar um projeto. Era uma coisa cultural de não aceitar a derrota. Acho que hoje se tem uma visão melhor de que, por exemplo, um Cristiano Ronaldo pode desequilibrar e a seleção brasileira perder. Ou que um Lukaku e De Bruyne podem estar em dia inspirado, Antes, era impossível aceitar isso”, acrescenta o ex-jogador.  Gilberto mesmo foi um dos contestados naquela convocação de 2010. “Eu não levei isso muito a sério. Acho que todo o treinador possui seu grupo de confiança. Não lembro assim de grandes questionamentos relacionados ao meu nome. Estive lá porque merecia. Mas via muito essas contestações com outros nomes mais experientes e outros atletas, como foi o caso do Grafite, até do Lúcio”, descreve o ex-atleta.  NEYMAR E GANSO MERECIAM TER IDO À COPA? Uma das grandes polêmicas da convocação de Dunga para a Copa de 2010 foi a ausência de Neymar e Ganso entre os selecionados. Havia um clamor nacional para que os garotos destaque do Santos esivessem na África. Todavia, na avaliação de Gilberto, a decisão de Dunga se mostrou acertada em uma avaliação geral das Copas que sucederam o torneio na África.  “Seleção brasileira sempre existiu isso. Você deixa uns 30 de fora que todo mundo gostaria de ver em uma Copa. Isso não foi só naquele ano. Enfim, isso tudo sempre funcionou dessa forma, o Brasil sempre produziu uma grande quantidade de atletas, e sempre tem aqueles que começam a se destacar um mês antes e as pessoas começam a pedi-los entre os convocados. Mas creio que ficou confirmado que Neymar e Ganso não estavam preparados. Nas duas Copas seguintes, o Neymar, por exemplo, não conseguiu levar a seleção brasileira para a final. O Ganso não foi convocado para nenhuma das Copas, alternou muito seus desempenhos. Isso mostra que não era aquele momento, talvez não fosse o momento ideal. Não se pode negar que eram dois jogadores de nível altíssimo. Mas eles não estavam prontos”, ressalta Gilberto.  A ESPANHA CAMPEÃ No dia 11 de julho de 2010, a Espanha se sagrou campeã do Mundo vencendo a Holanda, com um gol de Iniesta na prorrogação. Uma vitória que Gilberto considera ainda mais importante para o futebol espanhol, pois chamou a atenção de todo o mundo para o futebol que vinha sendo praticado no país e impulsionou a audiência da liga local.  “A gente estava muito acostumado a ver o Barcelona jogando daquela maneira (no Tiki Taka). Quando a seleção é campeã do mundo, o esquema tático acaba virando exemplo, passa a ser copiado. A seleção da Espanha já tinha isso, a base da seleção era do Barcelona e eles já estavam acostumados a jogar daquela maneira. Eles mereciam o título, já vinham desenvolvendo um projeto, já tinham sido campeões da Eurocopa, e acabou conquistando aquele título de uma maneira bacana, frente a uma forte seleção holandesa. Só que ela também tinha altos e baixos, às vezes jogava apertado, e conseguia conquistar as vitórias. Não foi uma vitória da mudança do futebol, mas as pessoas começaram a tomar mais gosto pelo Campeonato Espanhol, pelos times da Liga local. Era um estilo de jogo sem pontapé, sem chutão, por isso a Espanha conquistou mais o público, a bola ficava quase 70% do tempo com eles. Era um controle de jogo que encantava”, descreve o ex-armador do Cruzeiro.  RECOMENDAÇÕES SOBRE A ÁFRICA Disputar a primeira Copa do Mundo em solo africano foi um orgulho para Gilberto, que já conservava desde a Alemanha o desejo de voltar à seleção. Mas quando se iniciou o processo final de partidas antes da convocação definitiva de Dunga, o ex-jogador se recorda de alguns conselhos do departamento de futebol da seleção sobre os cuidados que os jogadores e seus familiares deveriam tomar em relação à África.  “Eu já tinha na minha cabeça a vontade de poder disputar uma Copa com a camisa da seleção. Em 2006 aconteceu. Foi marcante viver aquele momento espetacular, quadrado mágico, a maioria dos jogadores era dono de seus times, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano, e eu estava lá como reserva do Roberto Carlos. Não ter conquistado o título, mesmo com o elenco que tínhamos, gerou muitas críticas, e as pessoas começaram a pedir mudanças porque em 2006 o pessoal estava muito solto”, conta Gilberto.  “A Copa de 2010 foi diferente em termos de seleção. Lembro que quando fizemos o último jogo (antes da convocação), o seu Américo Faria estava comentando com os possíveis convocados, que tinha a questão de ingressos para os familiares, e na África seria muito complicado isso. Ele nos disse que não era recomendado ficar na rua depois de seis horas porque os caras pegavam e roubavam. Era mais uma coisa para alertar os familiares. Para gente não contava muito, vivíamos muito isolados, era concentra, joga, não foi uma coisa aberta até mesmo para os nossos familiares”, complementou o ex-jogador.  A Copa do Mundo de 2010 registrou muitos furtos, principalmente no início do torneio, quando os casos explodiram, atingindo turistas e profissionais de imprensa. A insegurança chegou aos jogadores. Sergio Busquets e Pedro, atletas campeões do mundo com a seleção espanhola, tiveram objetos furtados do interior de seus quartos no Protea Hotel de Durban antes de disputar a semifinal contra a Alemanha. Do primeiro levaram a mochila com todos os seus pertences e 800 euros, enquanto do segundo pegaram cerca de mil euros que estava dentro do cofre. Um outro caso emblemático daquele Mundial. Ladrões levaram sete réplicas da taça Fifa e duas camisas da entidade. O furto ocorreu dentro de salas da Fifa. A Polícia local fez uma força-tarefa durante a sequência do Mundial para evitar os problemas e os casos de furtos diminuíram, trazendo mais segurança aos participantes da festa que se via nos estádios.  E AS VUVUZELAS ATRAPALHAVAM Um dos sons peculiares daquele Mundial foi o da vuvuzela. Algo que Gilberto confessa, odiava. A experiência de jogar com um barulho daqueles foi algo nunca antes experimentado pelo atleta.  “Incomodavam demais. Era muito barulho. Só tinha visto algo parecido no México, os caras tinham muito isso, mas não lembro bem o que eles levavam para o estádio. Mas na Àfrica era muito pior. Uma barulheira danada. Você gritava e não conseguia falar com seu companheiro. A gente está acostumado a jogar com o barulho da torcida, muitas vezes não ouvimos algumas coisas, mas lá era bem pior. Você não conseguia se comunicar”,  concluiu o ex-jogador.  O barulho dos objetos, tradicionais no país, recebeu inúmeras críticas, mas acabou sendo aceito pela entidade durante a Copa da África. Mas após o torneio, a Fifa proibiu a utilização das vuvuzelas nos estádios. A partir de 2014, no Brasil, o instrumento entrou na lista de objetos vetados em Mundiais.

 

Fonte: O Tempo