Do sorriso marcante à aura iluminada: Parreira revive encontros com Mandela

Há uma década, a Espanha conquistava o título da Copa do Mundo da África do Sul. Um torneio que teve o brlho de Nelson Mandela. As dificuldades de saúde acometiam o líder, mas nunca lhe faltava um sorriso no rosto.  “O Mandela é uma figura mitológica. Eu ficava impressionando com a aura dele, com a simpatia, com aquele sorriso que fascinava qualquer um. Ele é um deus para o povo sul-africano. E estar ao lado dele foi uma das maiores experiências que tive na vida”. A fala é de Carlos Alberto Parreira, que em 2007 assumiu o comando da seleção sul-africana. Devido a um problema de saúde de sua esposa, ele não esteve à frente dos Bafana Bafana na Copa das Confederações de 2009, quando indicou Joel Santana ao cargo, mas retornou em 2010, reencontrando na preparação para recepcionar o Mundial com Mandela. Ao Super.FC, Parreira recordou quando ainda ouvia falar do líder, um prisioneiro político na luta contra o Apartheid.  “Uma vez estava com minha esposa em Londres, próximo a um centro movimentado da capital inglesa, e vi milhares de pessoas em um protesto gritando “Free Mandela, Free Mandela”. Uma multidão de perder de vista. Vi cartazes com esses dizeres, uma mobilização total por sua liberdade. Lógico que a gente sabia da luta dele, da história que ele construiu, mas quando se está frente a frente com ele, percebemos o porquê de toda essa admiração”, contou Parreira.  Técnico tetracampeão do mundo com a seleção brasileira, Parreira lembra-se de quatro encontros com Mandela. “Um foi logo quando eu fui contratado. Ele queria me ver em sua residência. Ele tinha duas, uma pessoal e a outra que ele recebia líderes mundiais e demais personalidades. Todo mundo queria conhecê-lo e tive esse privilégio. Me recordo que sorrimos bastante e até dei uma camisa do Ronaldinho para ele, um presente que ele gostou muito”, narra o ex-técnico da seleção sul-africana na Copa de 2010.  “Tive a oportunidade de ainda encontrá-lo em outra oportunidade e sempre com um sorriso no rosto. Na preparação para a Copa, ele foi à nossa concentração por mais duas vezes, nessa última ele já estava de cadeira de rodas e com dificuldades. Não vou lembrar exatamente das palavras, mas ele nos falou sobre o prazer de poder ver uma Copa do Mundo, um evento tão grandioso, em seu próprio país e pediu para que os jogadores aproveitassem a oportunidade para mostrar ao planeta a força da África, as belezas e honrassem todos os esforços da nação para receber o evento. Que nós aproveitássemos essa chance única. Mandela foi um líder que assumiu sem revanchismo, e foi fundamental para as mudanças no país. Ele teve todo o reconhecimento em vida e será sempre lembrado por todos os esforços. Governou com autoridade, com o apoio de todos e uniu um país que estava em pedaços. Estar ao lado dele foi um prazer pra mim”, acrescentou Parreira.  Mandela, que passou 27 anos na prisão por sua oposição ao regime de segregação racial do apartheid, morreu em dezembro de 2013, em sua casa na cidade de Johanesburgo, aos 95 anos. UMA RESPOSTA À IMPRENSA O namoro de Carlos Alberto Parreira com a seleção sul-africana era coisa antiga. Iniciou-se ainda após a Copa do Mundo de 2006. “Vinte dias após o término do Mundial da Alemanha, o secretário-geral da Federação Africana me procurou para poder apresentar o projeto de assumir a seleção do país. Eles tentaram me convencer de qualquer forma, me apresentando váriias situações. Mas eu acabei aceitando só no outro ano”, salientou o brasileiro.  Mas o técnico teve um início um tanto quanto turbulento com a imprensa sul-africana. O contrato de 46 meses, à época, levantou polêmicas no país. Seu salário, de US$ 257 mil (cerca de R$ 550 mil, na cotação do período) por mês, era apontado como maior que a renda anual do então presidente sul-africano Thabo Mbeki. A situação chateou Parreira, que revelou até ter pensado em deixar a seleção antes mesmo de assumir.  “Eu fui a seis Copas com cinco seleções. Mas quando aceitei o convite, foi justamente pela chance de poder treinar a seleção anfitriã de um Mundial. É uma sensção diferente, o envolvimento nacional, em todas as áreas. Todo mundo quer pariticpar, quer falar, é torcedor de rua, das elites, dos estádios, do comércio, da imprensa, foi um período muito bom”, relatou Parreira.  “Quando eu cheguei lá, logo percebi que a África do Sul é um país muito politizado, tem uma imprensa muito ativa, muito sensacionalista também. No dia que eu cheguei, os jornais só falavam do meu salário, mas não era nada comparado ao que outros técnicos ganhavam. Era algo ok, dentro da média. A imprensa de lá arrumou umas matérias falando sobre isso, multiplicou por três anos de contrato, 36 vezes, e colocaram aquele valor, uma coisa estúpida, Disse para o pessoal que estava cansado daquilo, estava para sair. Mas o secretário da federação que era muito habilidoso, descendente de holandeses e tal, me disse ‘eu vivo aqui, sei como é’. Fui no fim da tade, na conferência que ia me apresentar, todas as perguntas foram sendo feitas e aí veio a pergunta que estava esperando. Já virei e disse ao repórter: ‘escuta, não vim aqui por causa do dinheiro de vocês, já consegui algum dinheiro para minha independência. Eu vim aqui para ter o prazer de dirigir o time da casa em uma Copa e a importância disso é maior’. Aquilo dali foi a virada”, complementou.  TOTAL LIBERDADE: O CURRÍCULO PESA Escalar e selecionar jogadores para representar uma nação é sempre um processo que envolve bastante desgaste e também muito jogo de cintura. Mas Parreira apontou que seu trabalho na seleção sul-africana sempre foi marcado pela total autonomia. O mesmo não viveu Joel Santana quando esteve por lá.  “Eles queriam um treinador campeão mundial. E chegar com esse currículo faz toda a diferença. Quando decidi sair por motivos pessoais, eles me pediram a indicação de um técnico para assumir no meu lugar. E apontei um amigo meu, o Joel Santana, campeão de tudo aqui no futebol brasileiro. Na época, ele estava no auge. Mas nunca tinha treinado uma seleção. Quando ele (Joel) chegou, o título do jornal era “Mr. Nobody” (senhor ninguém, em português). Nenhum treinador sobrevive após uma manchete como essa. Foi o que aconteceu. O trabalho dele sempre foi marcado. E olha lá, isso aconteceu com um comandante multicampeão no Brasil”, pontuou Parreira. “Eles (imprensa e opinião pública da África) me respeitavam bastante. E eu sempre salientei que não estava ali pelo dinheiro, claro, era um salário muito bom, mas eu queria ter o prazer de viver essa experiência de comandar os donos da casa. Com isso, eu ganhei muito apoio entre os jornalistas do país. Eles sempre procuravam estar perto de mim e até hoje sou reconhecido por eles, mesmo após tantos anos”, reforçou.  Parreira foi o 14.º treinador da África do Sul desde 1992, quando a seleção começou a jogar em competições internacionais, após o fim do apartheid.  A ÁFRICA EM BH Durante a preparação para a Copa do Mundo da África do Sul, a seleção comandada por Carlos Alberto Parreira esteve em Belo Horizonte para um amistoso contra o Cruzeiro, no Mineirão, em março de 2010. O jogo não teve um apelo tão grande de público, com pouco mais de 13 mil espectadores no Gigante da Pampulha, mas os Bafana Bafana conseguiram segurar o Cruzeiro, em sua maioria composto por titulares, empatando por 0 a 0. “Eu sempre tive um contato muito próximo com Belo Horizonte, com os dirigentes do Atlético e outras pessoas daí. Conversei com o (Eduardo) Maluf, que sempre foi um grande amigo meu, e fechamos a possibilidade desse duelo com o Cruzeiro. Estive também com o Adilson Batista, o conhecia, e conseguimos acertar esse confronto. Foi uma experiência muito positiva para os meus atletas encarar um time como o Cruzeiro”, lembra o então técnico da seleção sul-africana.  Antes do Cruzeiro, a Àfrica do Sul realizou outros três amistosos em solo brasileiro. Empatou sem gols com o Volta Redonda, goleou os juniores do Fluminense por 8 a 0 e venceu o Boavista por 2 a 0. FALTOU SORTE NAS BOLINHAS O sorteio da Copa do Mundo foi indigesto para a África do Sul. Os anfitriões tiveram em sua chave Uruguai, México e a França, a vice-campeã do mundo em 2006. Os franceses de forma surpreendente ficaram fora das cabeças-de-chave. Segundo a Fifa, devido a classificação via repescagem, o mesmo motivo que deixou o Uruguai, outro rival sul-africano, fora das cabeças-de-chave. Cabia a Parreira um milagre.  “Pegamos um grupo que foi o mais difícil da Copa. Eles pegaram o oito cabeças-de-chave, e a França ficou sobrando. A primeira coisa que o Valcke falou no sorteio foi: ‘precisamos encontrar um grupo para a França’. E quando o sorteio foi se desenrolando onde que eles foram parar? O grupo da A, da África  do Sul com, Uruguai e México. É só acompanhar o futebol para entender onde que nos metemos. Em qualquer outro grupo teríamos ido à outra fase. É complicado demais. Fizemos a mesma pontuação de Gana”, lamenta Parreira.  “É lógico que a gente fica pensando em várias coisas nesses sorteios, não são armados, mas e se essa França caísse no grupo do Brasil? De uma Alemanha? Agora justamente na Copa da  África do Sul, fomos presenteados com a França. Coube a nós aceitar e acho que não fizemos feio. Nós empatamos com o México na estreia. Perdemos para o Utuguai por 3 a 0, mas não foi aquele placar assombroso. Estava 1 a 0, a gente buscando tal e tal, meu goleiro foi lá e dividiu com um uruguaio, eles o expulsaram. E para quem entende de futebol sabe, acabou o jogo ali. O 3 a 0 não foi o que diz do jogo. No fim ganhamos da França por 2 a 1, não conseguimos classificar, mas diante de tudo que passamos, foi uma participação muito honrosa”, salientou o comandante.  Essa última partida contra a França, na fase de grupos, sacramentou outro vexame da seleção francesa em mundiais, como aconteceu em 2002. Comandados por Raymond Domenech, os Les Bleus protagonizaram algumas cenas contronversas, dentre elas uma do próprio técnico francês, que não quis cumprimentar Parreira após a partida, alegando que o técnico foi desrespeitoso ao criticar a campanha da seleção francesa. Parreira ignorou. “Ele estava descontrolado”, resume.  A DIFICULDADE AFRICANA NA COPA DO MUNDO Em 1998, Pelé afirmou que uma seleção africana venceria uma Copa do Mundo em breve, mas o fato não se concretizou. Em 2010, Gana chegou às quartas de final e acabou eliminada nos pênaltis em um jogo dramático contra o Uruguai. Aquele foi o melhor desempenho de uma seleção africana em Mundiais, sendo que na Rússia, em 2018, nenhuma seleção do continente avançou sequer ao mata-mata. Carlos Alberto Parreira comentou o motivo dessa disparidade.  “Se dizia muito que nas próximias Copas um africano venceria, mas a gente viu que isso não aconteceu. Eu vejo isso com outros olhos. Elas fazem um bom papel, mas quando chega essas fases mais agudas, existe aquela filtragem especial, começa a valer o peso da história, da camisa nas quartas, na semifinal. Qualidades eles têm. Pega uma Nigéria, Senegal, seleção da Costa do Marfim, por exemplo. Não falta qualidade. O elenco deve ter de 9 a 11 jogadores sendo protagonistas em seus clubes na Europa. Mas eles se reúnem muito pouco. Quando vão para a Copa, eles vão para a individualidade, para a veloidade. São boas seleções, mas é necessário um tempo maior de preparação”, opinou Parreira.  A seleção da África do Sul marcou o último trabalho de Parreira como treinador de futebol. Assim que se encerrou o contrato com os Bafana Bafana, no fim de 2010, ele anunciou a aposentadoria. Parreira ainda voltaria para mais uma Copa, sendo o coordenador técnico da seleção brasileira na Copa de 2014.  “Acho que ali foi um dos grandes momentos do futebol do país. Foi uma  experiência que eu adorei, fui muito bem tratado, todos reconheceram o trabalho. Desde então, a África do Sul não foi mais à Copa, não foi campeão africana. Muitas coisas aconteceram, mas o futebol do país não foi mais o que se apresentou em 2010”, concluiu Parreira.

 

Fonte: O Tempo