De rúgbi a Monster Truck: saiba o que aconteceu com os estádios da Copa de 2010

Há uma década, a África do Sul recebia a primeira e a única Copa do Mundo no continente. Um torneio que celebrou a Espanha campeã mundial, mas também marcado por inúmeras polêmicas e denúncias de corrupção. O legado daquele Mundial era uma das grandes preocupações. Afinal de contas, o país não possui tradição no futebol, mas, sim, em outras modalides, como o rúgbi. O que seria então dos luxuosos estádios construídos ou reformados justamente para a competição?  No total, os 64 jogos daquela edição foram disputados em 10 estádios, divididos em nove cidades. Johanesburgo teve duas arenas. As outras oito cidades que receberam o Mundial foram Cidade do Cabo, Durban, Nelspruit, Polokwane, Rustemburgo, Pretória, Bloemfontein e Port Elizabeth. O balanço final dos custos dos estádios construídos pela África do Sul para a Copa de 2010 indicou que o governo gastou 16,5 bilhões de rands (R$ 3,8 bilhões, à época) com as obras. A quantia ultrapassou dez vezes o valor previsto inicialmente pelo governo, quando a África do Sul ainda era candidata a sediar o torneio mais importante do planeta bola.  Outra estatística estarrecedora apontada foi que dos dez estádios que receberam jogos do Mundial, pelo menos oito custaram mais que o esperado na previsão inicial da organização. Dois casos são emblemáticos. A reforma do Ellis Park, em Joanesburgo, por exemplo, custou 400% mais que o previsto. Já a construção do novo e moderno Green Point, da Cidade do Cabo, superou em 175% seu orçamento. OS ESTÁDIOS HOJE Mas como estariam sendo utilizados esses estádios atualmente? Curiosamente, muitas das arenas têm conseguido se manter, mas não especificamente dependendo da finalidade inicial: o futebol.  O governo local celebra ao menos o fato de que muitas das arenas construídas ou reformadas não dependeram de empréstimos, livrando o país de grandes débitos futuros. Apesar disso, os altos custos operacionais fizeram os atuais detentores das arenas pensarem em atividades multiuso para conseguirem se manter, algumas delas recebendo de jogos de rúgbi a eventos corporativos e religiosos. Os estádios em regiões mais remotas do país, no entanto, vêm enfrentando dificuldades.  SEM EQUIPES NA LIGA PRINCIPAL Os estádios Mbombela (foto acima), em Nelspruit, para 46 mil torcedores; e o Royal Bafokeng, em Rustemburgo, com capacidade para 42 mil espectadores, atravessam diiculdades operacionais. Os dois perderam suas equipes de futebol na liga local, a PLS: O Mpumalanga Black Aces e o Platinum Stars foram comprados e movidos para a Cidade do Cabo.  O futebol não é mais um esporte tão praticado nessas sedes do Mundial, mas alguns eventos acontecem como finais da Copa Cosafa, um torneio anual de futebol voltado para equipes da África Austral. Uma salvação para o Mbombela tem sido a presença do SuperSport United, clube da PSL que também manda parte de suas partidas no estádio. Mesmo assim, os habitantes das regiões não têm visto tantos jogos importantes nos estádios ou então jogos televisados diretamente das praças que serviram de sedes para o Mundial da África do Sul.  ESTÁDIOS DE RÚGBI O Ellis Park (foto acima) é um sinônimo de rúgbi em Joanesburgo e continua sendo usado para tal finalidade. O mesmo acontece com o Free State Stadium, em Bloemfontein; e o Loftus Versfeld, em Pretória, sendo que esse último também é utilizado pelo Mamelodi Sundowns, atual campeão da liga local de futebol para jogos domésticos.  UTILIZADOS COM FREQUÊNCIA  O Nelson Mandela Bay, em Port Elizabeth; e o estádio Peter Mokaba (foto acima), em Polokwane, seguem sendo utilizados para a prática do futebol e outros eventos, mas não atraem tanto público para torneios do campeonato sul-africano. Ambos recebem de forma regular partidas decisivas, como decisões de Copas, e estão com a manutenção em dia, como informa a imprensa local.  ARENAS DE VIDA ATIVA, MAS SEM O FUTEBOL  Os estádios nos grandes centros são, de fato, os mais utilizados. O Soccer City (foto acima), em Joanesburgo, foi o palco da grande decisão do Mundial. Atualmente, ele é a casa do Kaizer Chiefs, tradicional clube do futebol sul-africano. Apesar disso, os públicos do time são bem modestos, chegando até a 5 mil pessoas em um jjogo comum. A situação se inverte quando o Kaizer Chiefs entra em campo contra o Orlando Pirares, o famoso clássico do Soweto. Para este duelo, o estádio recebe capacidade máxima (90 mil pessoas), com os ingressos sendo vendidos com antecedência. O Soccer City, chamado hoje de FNB Stadium, recebe também os maiores shows na África do Sul. Em Durban, o estádio Moses Mabhida vem utilizando suas dependências internas para oferecer muito mais que eventos. O local se transformou em um centro de compras, que abriga também uma academia e restaurante.  O Green Point, na cidade do Cabo, está vinculado a dois times da liga local do futebol sul-africano, o Cape Town City e o Stellenbosch FC. Apesar disso, os clubes têm que abrir mão do estádio para outras finalidades, algumas delas curiosas como competições de Monster Trucks. O local ainda abriga o Sevens de rúgbi, evento tradicional na CIdade do Cabo, e grandes shows.  CAMPEONATO CONSOLIDADO, PORÉM… A Premier Soccer League, o campeonato sul-africano de futebol, foi criada em 1996, e é o torneio nacional mais bem organizado do continente africano. A competição possui 16 times na divisão de elite, e todos eles recebem mais de 150 mil dólares por mês (R$ 800 mil, na cotação atual). Os campeões das principais competições do país dividem 34,5 milhões de rands de premiação (US$ 2,08 milhões).  Apesar disso, o brilho do futebol sul-africano é muito incipiente. Desde 1964-1965, quando ainda era disputada a Copa Africana dos Campeões, e posteriormente a Liga dos Campeões da CAF (a confederação africana de futebol), apenas dois times do país alcançaram a maior glória do cotinente: o Orlando Pirates, em 1995; e o Mamelodi Sundowns, em 2016.  A SELEÇÃO É UM PROBLEMA CRÔNICO Desde 2010, a seleção sul-africana não voltou mais a uma Copa do Mundo. A equipe falhou em todas as qualificações para os Mundiais desde então, e até acumulou alguns vexames, ficando fora da Copa Africana de Nações, em 2012 e 20178. O único título continental da seleção sul-africana foi a conquista da Copa Africana, em 1996, quando sediou o evento pela primeira vez.  Diferentemente de 2010, quando a seleção sul-africana possuía jogadores conhecidos no futebol mundial, como Steven Pienaar (ex-jogador dos ingleses Tottenham e Everton) ou Benni McCarthy (Ajax e Porto), atualmente jogadores sul-africanos não possuem grandes destaques. Alguns nomes são bons valores com possibilidade de crescimento, como o caso de Thakgalo Leshabela, meia de 20 anos do Leicester City. Com resultados ruins, os Bafana Bafana perderam bastante o apelo de público.

 

Fonte: O Tempo